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PAISAGENS 01 A 06

Ordem e caos, acúmulos e vazios. Múltiplas perspectivas em tramas sutis de linguagens.  Nos trabalhos de Dolly Michaviloska nos defrontamos com os dilemas e a poética das paisagens urbanas. São pinturas e desenhos simultâneos, nos quais rigorosas estruturas abstratas, ora densa matéria, resultados de colagens; ora delicados traçados a bico de pena, revelam fragmentos sempre incompletos da urbe. Justapostos, inclinados ou mesmo em queda livre, esses módulos geométricos - paralelepípedos, pirâmides e, por que não, arquiteturas-, constroem, por meio de subversões da perspectiva, múltiplas visadas. Não seria essa nossa experiência nas grandes cidades?  Como visualizar conjuntos, configurar totalidades?  Há algo inquietante nessas paisagens: elas parecem flutuar, não ancoram.  Mais: é como que se descolassem das figuras duplas em delicados desenhos e pudéssemos captar o momento mesmo de suspensão, elaborado entre os recorrentes jogos de oposições plásticas: pintura/desenho, cor/transparência. Novamente aqui, a experiência é do sujeito na cidade contemporânea, sua descorporificação diária, como se seu corpo estivesse precariamente ligados por um tênue fio ao real. 

 

Martha Telles, CCJF  Rio de Janeiro,  setembro 2016 

 

ARQUITETURA AÉREA

A arquitetura é sutil , muito sutil. Entrega-se de modo evidente, mas não se apoia, antes flutua. Sem necessitar de fundações, de terrenos ou territórios, de um solo, é uma arquitetura aérea. É uma trama, que se encontra aqui e ali, mas às vezes se entrelaça. São antes de tudo pintura e desenho simultâneo. sofrem delicadamente essa existência sobre a superfície branca à qual tem que se impor sem agredi-la. Sofre? Erro, não sofrem; usufruem do branco que, em alguns momentos, a travessa e areja. De sua leveza derivam suas posições.


Dolly Michailovska joga com os volumes e sua rica paleta de cores sutis; nunca ocorre uma extravagância. Os vetores de direções constrói a espacialidade. Estamos distantes da pintura planar de um Matisse, de um Mondrian, de um Pollock ou de um Rothko. A arte contemporânea em muitas de suas explorações pictóricas não apenas retoma a figura como a ilusão de profundidade. Mas aqui a "figura" são blocos anônimos, troncos de pirâmide, paralelepípedos, estruturas abstratas, e trabalha com perspectivas invertidas que se opõem e produzem tensão na medida certa. Mesmo suspensos não desabam.

A plasticidade encontrada entre pintura e desenho é outra oposição perspicaz. Às superfícies marcadas pelos módulos geométricos vêm dialogar com aqueles que se assemelham a desenhos a bico de pena que não transgridem os elementos em comum, os próprios módulos, e acrescentam uma trama transparente. Os matizes cromáticos delicados usam a geometria para proceder a variações em torno de uma mesma cor cujos tons variam do claro ao escuro como notas em uma partitura revelando suaves acordes.

Essas imagens seguramente têm origem na artista formada arquiteta pela antiga Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual UFRJ, quando ainda estava instalada no campus da Praia vermelha, no prédio da antiga Reitoria. Lá foi palco, não somente da formação de parte de nossa melhor arquitetura, hoje desaparecida do cenário cultural da sociedade brasileira, como dos primeiros shows da bossa nova. A artista, embora se dedicando primordialmente ao trabalho que profissionais com o campo de sua formação. Agora compreendemos melhor os blocos e esculturas que temos diante de nós, a origem de seu rigor e suas relações de parentesco. São sóbrios corpos que ressurgem de um momento privilegiado da cultura da sociedade brasileira que marcou a artista. Dolly, talvez pelo estado em que hoje nos encontrarmos, não localiza o solo onde apoiar seus edifícios de geometria e cor, não lhes resta senão flutuar sobre o chão que não mais os merecem. A imaginação arquitetônica mesmo assim se manifesta com força no espaço inventado pelo talento e, repito, pelo rigor.

Paulo Sérgio Duarte, Rio de Janeiro, Julho de 2014

 

 

DOLLY MICHAILOVSKA – PLANOS EM MOVIMENTO


Linhas, planos, cores e formas geométricas são os elementos presentes na obra de Dolly.


Cada obra possui uma estrutura e funcionamento próprios que partem de um fundo uniforme pintado com tinta acrílica e, sobre ele, inúmeras colagens feitas de pedacinhos retangulares de recortes de revistas fazem a tarefa de construir a luz da tela, como medida de valor cromático – o tom. Essas colagens atuam como pinceladas rítmicas e dinâmicas e, também, como textura.


Através dos tons e do deslocamento diagonal de alguns recortes de papel, estruturam-se formas, compõem-se planos diagonais cromáticos no espaço da tela, em camadas, dando movimento e ritmo a obra. Os planos são tantos quanto as sensações que se pode receber de sua mutável situação no espaço e na luz. Movimento, ritmo e dinamismo transmitem forças e definem o espaço da obra.


Ainda na construção deste espaço, a artista desenha por vezes, outras camadas ou planos translúcidos diagonais á bico de pena, como se fora uma malha, que por vezes, se apresentam como formas tridimensionais, como elementos arquitetônicos. Essas formas geométricas assumem diversas posições no espaço e se deslocam no tempo, criando ritmo em uma absoluta unidade espaço temporal.


Esses jogos estruturais no espaço começam a ganhar novos contornos, quando a artista faz com que os planos propostos se mesclem, deixando de ser camadas superpostas para serem parte integrante de uma complexidade espacial. Cria-se uma inter–relação de forças simultâneas.


Dolly, pertence a vertente construtiva da arte, nos apresenta com extrema sabedoria e intuição, a configuração de um espaço plástico como campo de energia em gestação de ritmos e modulações cromáticas, em um processo mental e manual de construção.

Fernanda Terra, Maio 2012

 

 

TEMPO TEMPO TEMPO

 

Os desenhos da artista são espaços mentais, nascidos da narrativa da linha. Há o desenho sobre o desenho, ou mesmo sobre os planos de cor. Ou seja, o paradoxal fluxo da forma, que na sua voracidade pela "linha justa" não se intimida em vivenciar a obsessão do rigor, em situar-se entre o limite da clareza e o da solar saturação.
 

A linha adentra, se sobrepõe ao fundo, torce sobre si mesma, se multiplica em polípticos. É um desenho cuja narrativa é o jogo entre o seu fazer e a preservação de uma lucidez formal, é a perseverança da clareza e da luminosidade interna da obra, que não renuncia, contudo, à desenvoltura concentrada do prazer de esticar, vergar, seguir com ela o máximo possível, como se, deste modo, ela fizesse o contraponto à fragmentação da cor que aviva as silhuetas recortadas e dinâmicas do fundo.

Guilherme Bueno, Julho 2010